quinta-feira, 11 de junho de 2009

Do Orelhão


Seu Romão, preso político, velho sonhador e ranzinza estava escutando um disco do Lupicínio deitado no sofá. A preguiça o estava dominando naquele momento tênue entre um sono e um gostoso som de pássaros. Na varanda o coleiro cantava alto. O mundo andava devagar.
Ana Rosa desembarcava na Grande Curitiba, com uma mala espalhafatosa e os dedos gélidos. Implorou, radiante, por um pouco mais de calor no sangue já em cubos cristalinos de gelo.
Foi até o orelhão e discou o número da casa do pai, esperando um pouco daquela paz que a fez voltar à cidade modelo.
Explodiu na sala do seu Romão o “trim” do telefone antigo. Ele, com uma caneca de leite quente nas mãos atendeu com vontade de desatender imediatamente. Ela, Ana Rosa, foi falando primeiro para não perder tempo

- Pai!

Seu Romão, também para não perder tempo disparou:

- Não tenho filha com essa voz de puta paulistana!

Ela, confusa, foi conferir na agendinha de papel o número da casa de seu velho pai.

terça-feira, 31 de março de 2009

O dia de Deus e o dia do Diabo


Para o padre, observa o moleque sentado na porta de sua igrejinha. Curioso, já ia entrando quando volta e pergunta ao guri:

- O que estás a fazer aqui meu filho?
- Ora seu padre, me dê um tempo!

A arrogância destemida do rapazinho para com o padre surpreendeu a dona beata que passava na hora vinda de arrumar a sacristia.

- E isso lá é maneira de se falar com os mais velhos, menino?

O espevitado mandou uma banana para a beata e colocou sebo nas canelas da escadaria da igrejinha. Mais tarde, a mãe chegou do trabalho do mercado da cidade com um quente e dois fervendo. Passou a mão numa chinela velha de coura que o pai calçava dentro de casa e foi logo caçando aquele mal educado. Encontrou o pequeno urinando na planta mais querida, nos fundos do quintal e foi logo perguntando:

- Mas o que há com você hoje, Patrício? Todos me fazendo reclamação pela cidade. Dona Ângela me disse que o senhor lhe fez gestos feios. Seu João me disse que até roubaste um pão doce da cesta do padeiro mais cedo. Está com o capeta, meu filho?

- Pois a senhora está enganada – retrucou o espertinho – Passei o dia inteiro me divertindo, brincando de ser Deus.

No domingo seguinte, ao sair da missa com os pais, resolveu contar a próxima brincadeira antes de fazer para não se repetir a surra.

- Mãe, amanhã eu posso brincar de ser o diabo?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Chaveiro-canivete e a rainha do... terninho


Na Presidente Vargas lotada caminhava uma garota carioca. Terninho que era uniforme da Embratel. Falante ao celular novinho que havia comprado com o ultimo salário. Um luxo, tira foto e o caramba. Passa um moleque correndo, leva o móvel, ela nem vê. Fica lá com uma das mãos ainda perto da orelha, nem sabe direito o que aconteceu. Chora, pede ao guarda que veste cáqui alguma providencia, mas nada pode ser feito. Esses catiços treinam na areia da praia. No asfalto, aí é que eles só faltam voar. Puta da vida, foi na Central. Achou um beco vendendo bagulho em plena luz do dia.
- Me dá um de dez pra fazer efeito rápido.
Mandou pra dentro do nariz uma mistura danada. Olhou pra esquerda e viu o moleque prestes a trocar o celular com um outro vagabundo. Foi decidida a negociar com o infeliz.
- Quer fazer uma troca justa por ele?
- Pode ser – Falou o xincheiro.
- Me devolve essa porra, que eu te pago um almoço e ainda te faço um boquete. Tudo por minha conta.
- Quero não dona, pode levar – Disse de olhos esbulhados o safado.
Ela deu de mão no telefone e levou embora, deixando cinco merréis pra ele. Ele, lembrou humilhado que já haviam feito essa mesma oferta. Assim ele perdeu o pinto. Nas mãos de uma desvairada que possuía um tal de chaveiro canivete. A tal havia comprado no trem.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Uma puta... provavelmente



Os diversos ritmos musicais refletiam na parede do pequeno apartamento, vindo principalmente dos arredores dos arcos. A vida boemia do bairro era conhecida e não parava. Jonas agitava-se na cama para lá e cá com um sentimento de vazio. Levantou-se. Tomou um belo gole de suco e voltou para o quarto, onde pegou os cigarros. A mente repleta de agonia, com aquela mistura de ruídos ensurdecedores e incrivelmente variados. Se encaminhou pra sala com um cigarro na boca e um jeans no corpo. Pensou alguns instantes na vida com o cigarro nos dedos. Era tarde. Mas era na madrugada mesmo que ganhavam a vida. Coragem nunca faltou. Jonas achava mesmo que quem não tinha coragem de seguir com aquilo era ele. Mas algo lhe dizia que era preciso. Depois que fizera a primeira vez e com prazer, era um sinal que tudo havia de ser feito quantas vezes achasse necessário. Voltou ao quarto. Calçou um chinelo e vestiu uma camiseta branca.
A mulher assustada que estava, levantou com uma tremenda desconfiança e com o olhar de quem nada gostava.

- Escuta aqui seu Jonas, já é a quarta vez que eu lhe vejo saindo escondido na madrugada. Eu perguntei se você queria sair e o senhor me disse que não. Posso saber que raios vai fazer na rua às três da manhã?

Jonas deu uma belíssima desculpa esfarrapada para a esposa que lá ficou a engolir tal mentira. Nas ruas, o homem agoniado encontrou gente de tudo quanto é tipo. Vestidos de todas as maneiras. Os sons continuavam entupindo-lhe os ouvidos e a vida festeira da Lapa parecia não passar diante dos olhos. Acendeu mais um cigarro enquanto caminhava. Permanecia com a alma inóspita e inoperante. Expressão de quem não pensa em nada. Pensou na Lourdes. Mulher de garra e fibra. Agüentaram bastante em Del Castilho, vivendo de aluguel na casa de uma das tias da mulher, agora conseguiram comprar aquele apartamento.
Jonas parecia sufocado. Esbarrou em um molecote que estava drogado e procurou briga. Seguiu em frente sem olhar pra trás com os olhos quase vidrados. Lembrou das outras vezes que sentou na cama precisando fazer com que a vida parasse. Havia de parar. Cismou estar sendo seguido e a quase esquizofrenia lhe custou uma parada obrigatória para ser taxado se maconheiro pelos policiais que lhe revistaram pelo caminho. Sem flagrante e com documento, os canas deixaram Jonas seguir com um olhar perdido, mas que parecia determinado. Andou mais uns metros, alcançando um antigo galpão onde antes havia sido a casa de um bloco carnavalesco do bairro. Jonas havia feito um de seus poucos bons sambas para aquele bloco. Sentou-se na calçada do bloco. Do bolso tirou o maço de cigarros e um cantil que havia surrupiado do cunhado que morava no Recife. Deu um grande trago no cigarro e um gole na cachaça. Atentamente, esperou o que estava para acontecer. Os olhos fixos numa porta de ferro do outro lado da calçada. De lá, sai um rato que mais parece um gambá de tão enorme. E se aproxima de um objeto metálico no chão. Ouve-se um grunhido de dor. Lá estava o bicho asqueroso, preso e morto por sua gula infindável. Jonas aos risos, entornou mais cachaça pela goela.
Enquanto isso a mulher em casa reclamava ao telefone com uma amiga do curso de inglês:

- Não sei. Uma puta... provavelmente

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

É preciso acreditar


Meu texto poderia falar das datas comemorativas de fim de ano, mas vou falar de algo muito mais importante pra minha vida. No dia 7 de Dezembro de 2008, caía um gigante. O Clube de Regatas Vasco da Gama não pode lutar contra os anos de sucateamento e apenas 10 anos depois da conquista do título mais importante da sua história, sente o gosto amargo de não poder disputar no próximo ano a série A do Campeonato Brasileiro. O coração vascaíno chora as lágrimas que a desilusão e o sentimento de dever não cumprido trazem.
O tal dia, foi um dos mais tristes da minha vida. Com 11 meses vesti minha primeira grande camisa do Vasco, autografada pelo maior ídolo do clube e então presidente, Roberto Dinamite, dando assim, meus primeiros passos sólidos. Amar esse time não deve ter divisão e nem fronteiras. É mais do que simplesmente torcer, ou mesmo acreditar no poder do esporte. É cultuar religiosamente uma instituição da qual tenho orgulho de me apaixonar e amar a cada dia. Sofri e chorei com o Vasco muitas vezes. Tantas que nem sei contar. Mas as alegrias e os risos foram tão superiores e infindáveis que a história do Vasco suprime toda essa tristeza que o peito de nós todos, torcedores vascaínos sentimos nesse presente momento. Temos de ter fé e esperança que os erros que hoje nos resultaram o fracasso, nos estabeleça a confiança de uma administração sadia, segura e profissional, acima de tudo, trazendo de volta os dias de glória que o nosso Vasco merece. Devemos ainda, lembrar sempre que, não há mídia, divisões, jogadores ou barreiras, que sejam maiores do que o Vasco junto de sua fiel torcida é e sempre será e que, enquanto as frustrações dos outros sejam aliviadas com nossas desgraças, quem perde é o futebol carioca, brasileiro e do mundo, por não ter [por enquanto] o Vasco na série A.
É tempo de acreditar no Vasco, amar e respeitar aquela camisa infindavelmente e acima de tudo, gritar mais uma vez que o Vasco é o time da virada e do amor. Pois é exatamente isso, a torcida, essa alma inquebrantável de emoções, delírios e sim, lágrimas, por que não... que o não grande, o Gigante, Clube de Regatas Vasco da Gama voltará para onde nunca deveria ter saído, a elite do futebol brasileiro e mundial. A todo torcedor vascaíno eu deixo a minha solidariedade e amizade. Ao Vasco, deixo o meu amor eterno e a certeza de que nunca irei te abandonar e estarei ao seu lado até depois do fim, seja na maior das alegrias ou na pior das tristezas. Não temos tempo pra luto, AVANTE, VASCÃO!

sábado, 1 de novembro de 2008

Continue



Não por hoje
Hoje será de apreciar o horror
Hoje é para ser esquecido
Para cair sem peso no abismo
É para ser infrutífero
Hoje não há rotina
Hoje é morrer, e de morrer de novo
Hoje é de não ouvir
Escorregar através do limo
Hoje é dia, data e hora
Sem sentir o cheio
Não há o que sentir
É hoje que se vai
Não demorar é ir bem
Mas vai mal, não se preocupe
Retroceder, palavra-chave
Sem portas, nem janelas
Calçar os sapatos
Apagar as velas
Sorrir forçadamente
Fechar os olhos
Torcer organizadamente para não abrir
Abrirá e tudo vai estar
Não hoje, sempre

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Por um pouco de felicidade


Era um domingo de sol. Portas e janelas abertas nas casas da rua, churrasco na calçada e uma pelada organizada pelos moleques. Acordou ás duas da tarde o Eugenio, lá com uns 43 anos e parecendo ter menos. Gostava de dormir sob a sensação térmica do frio provocada pelo condicionador de ar. A bagunça provocada pela festa do dia anterior o deixava cansado e dava mais vontade de voltar pro quarto refrigerado e confortável.
Indo em direção a geladeira, resmungou numa linguagem quase inteligível um palavrão, posteriormente entornando em grandes goles dois copos d'água. Sentou-se vagarosamente no sofá da sala com uma xícara de café na mão, de frente para a TV desligada. Fitando sua própria imagem na tela, sentiu-se vazio sem o tanto de gente que permaneceu na festa até quse o dia raiar. Lembrou-se quase que no mesmo instante, da carteira desaparecida que ainda não havia achado. Pensou no que ele ficaria aborrecido de perder além dos documentos: uma medalhinha de Nossa Senhora da Graça, fotos das filhas e um samba que havia rabiscado uma semana antes no boteco com o amigo. Notou porém, que ele era o único em casa. A mulher devia estar no mercado. Tentou falar alguma coisa consigo, mas quase imediatamente mudou de idéia. Levantou-se do sofá rumando para a cozinha. Abriu a geladeira em busca de cerveja, mas não tinha. Meteu a mão por cima do armário procurando o maço de cigarros, que lá estava, mas vazio. Reparou então, que a casa estava demasiadamente escura e que os pães que estavam na cesta, estavam bolorentos e duros. Confuso, tentou sorrir mas não conseguiu. Irritado, tentou raciocinar e nada evoluiu. Então voltou-se para o quarto, inquieto e impaciente. Sem ter exito em qualquer feito, decidiu dormir e sonhar com algo feliz. O sono não veio e por consequência, não trouxe os desejos. Fechou a cara, limpou a mente e decidiu se bastar, mas agoniado levantou-se e se pôs a andar feito louco para lá e cá.
Não demourou escutou ruídos de motor de carro velho. Olhou pela janela do quartou e viu que era a kombi velha da entrega do supermercado. Escutou as risadas das filhas e uma advertência da mulher para com as crianças. Deitou-se e voltou a dormiu para sonhar. As crianças foram correr atrás do cachorro. Lembrou antes de conseguir cochilar onde colocara a carteira. Sonhou vendo-se andando sem rumo.