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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Motores



Hoje, mais cedo, o homem veio me trazer um botijão de gás. Trinta reais. Viver está ficando cada vez mais caro. E agora voltei a me deitar no sofá. Eu escrevo. Escrevo sem parar, mas sinto uma preguiça incalculável. Tive que trocar o gás. O idiota não pode nem trocar o gás. Estou morrendo de preguiça e coçando o saco. Estou de saco cheio dessa cidade cinza e provinciana. Eu tenho preguiça de sair daqui. Mas eu quero sair. Não agora, agora preciso ir até a casa da frente. A casa da dona dessa casa. Vou pagar o aluguel e reclamar do cheiro forte de tinta que está entrando direto na minha sala, onde passo a maior parte do meu tempo lendo, escrevendo e coçando o saco, sempre deitado no sofá. Quase não ligo essa velha televisão. O rádio, sempre me acompanha. Mas quase sem músicas. As notícias da CBN, isso sim. Mas elas também não me interessam. O que realmente me interessa é escrever. Uma escrita maldita. Uma que só eu saiba e consiga ler. Eu não recebo visitas. Tenho que ir pagar o aluguel. No meu quarto, a velha estante que era ainda da repartição do meu pai está quase caindo, mas eu a escoro com um banco velho que trouxe da casa da tia Marta. Velha insuportável, me cobrou doze reais. Nessa instante, todos os meus cadernos. Com aquela escrita maldita que sai de mim. As vezes, encontro as letras, palavras, frases, perdidas em folhas soltas. Eu as colo em outras folhas que condizem. Vou me levantar e pagar o aluguel. A senhoria estava esperando desde ontem, mas eu não trabalhei de dia. Ontem de dia eu só escrevi. Escrevo tudo que penso que é para não correr o risco de ser tachado como louco. Mas essa é a contradição que me impede de publicar qualquer escrito. Eu não sou louco. Eu sou apenas um bom preguiçoso. A kombi precisava ser lavada essa tarde, mas eu só vou trabalhar a noite. Tenho que pagar o aluguel. Vou adormecer antes que eu resolva enfim levantar. O aluguel fica para depois.
Acordei com um plano mirabolante de não pagar o aluguel, mas um processo demoraria séculos, e eu não tenho tempo para desperdiçar meu tempo livre. Por isso eu pago. Em cima da geladeira, tem um pato onde minha mãe guardava os ovos. Ela faleceu faz três meses exatos. Três meses hoje, dia de pagar o aluguel. Não liguei muito para o enterro, muito menos para a morte dela. A família me acha um monstro sem sentimentos, mas tudo o que eu preciso para lembrar dela está naquele quarto ali, na direita do banheiro. Não, não era seu quarto. Era o quarto onde ela guardava o que não queria. O que queria jogar fora. Discos, babilaques e fotos. Louças, lâmpadas e cartas. Ela guardava lâmpadas. Não era coleção, pois ela não desejava aqueles lixos. Ela simplesmente não se desfazia. Em um isopor enorme, lá estão as lâmpadas. Eu não mantive essa mania. Mas sinto-a me recriminando porque joguei fora as duas lâmpadas que queimaram nesses três meses. Três meses hoje, dia de pagar o aluguel. O cheiro de tinta é forte, mas não vale um processo longo e demorado que vai me tirar do sofá e dos cadernos por algum tempo. Eu trabalho a noite, pois eu gosto de passar o dia lá dentro de casa. Aqui fora, nem a mangueira rende frutos. E eu tenho que pagar o aluguel. Fui até a casa da dona da minha casa. A minha casa, não era minha. Fora antes dos meus pais, como todas as outras daquela pequena vila. Mas o meu pai vendeu a vila faz tempo. Eu e meu irmão ainda não havíamos saído de casa. Meu irmão estudou muito. Eu parei no primeiro período de engenharia. Era uma merda. Meu pai vendeu a vila quando éramos pequenos. Eu não me lembro, meu irmão deve se lembrar melhor, ele é mais velho. Nem sei o motivo. Agora, a dona da minha casa é quem é a dona. Antes era o seu Joel, mas ele também vendeu. Vendeu pra essa velha. Eu tenho repúdio à velhice. Não se pode deitar na velhice, se não você sente dores. A velhice é uma doença que os preguiçosos não se podem dar ao luxo de ter. É dia de pagar o aluguel. Seu Joel não nos deixava pagar. Dizia que tudo que havia conquistado era graças à vila do meu pai. Ele também era velho. Velho e ignorante. Velho e burro. Burrice é uma doença que os preguiçosos não podem ter. Ela nos priva de argumentar a favor da nossa própria doença. Chamei feito um louco a velha que é dona da minha casa. Ela é velha, mas não é burra, apesar de ser ignorante. Ela não atendeu. Nessa vila só moram velhos. Eu não pretendo ficar velho e decrépito. Eu fumo, eu bebo e dirijo pelo menos doze horas por noite. Durmo pouco, escrevo muito. Deu vontade de comer. Essa louça está na pia faz três dias. Há três meses atrás, minha mãe morria. Hoje, exatos três meses depois, é dia de pagar o aluguel. Mas a velha Carmita não responde. Sim, Carmita é o nome da velha que é dona da minha casa. Mas ela não responde. Esse cheiro de tinta me dá fome. Vou até a vizinha comê-la. Ou quem saber comer. Se não, busco a kombi e vou comer na pensão. A chave está dentro de casa. E eu sentado no murinho da varanda. Mais uns dez minutos e eu vou pegar. Três meses depois que enterraram minha mãe, é dia de pagar o aluguel. A velha Carmita cobra.
Senti-me obrigado a voltar. Ela não atende. Não atende mesmo. Então vou até a minha vizinha. Chego com o apetite e os hormônios em fúria. Ela grita “entra”, como quem tem urgência que eu o faça. Encontro-a toda molhada, encostada com a barriga no tanque, me olhando cheia de maldade. Noto que ali acima da panturrilha esquerda, começa a se mostrar umas varizes. Fico meio enojado no início, mas logo ela me convence a entrar. Eu já mostro uma ereção significativa. Ela, secando as mãos num pano de pratos encardido, me pergunta o que fui fazer ali. Respondo que estou com fome e senti o cheiro de boa comida. Ela se mostra surpresa. Encara com um sorriso bobo, a minha cara dura. Eu reparo a louça na pia. Não deve estar a tanto tempo quanto a minha. Reparo acima do filtro de barro, pregado na parede, um calendário do ano passado. Eu reparo tudo. Ela coloca um belo prato de comida. Eu não terminei de comer. No quarto, depois de gozarmos quase juntos, ela tenta me falar de como está a vida de solteira. Que era também era bom me dar enquanto casada. Eu ouço poucas palavras. Levanto nu e cortando totalmente o barato digo rispidamente: “preciso pagar o aluguel!”. Saio levando uma maçã. E a velha, dona da minha casa, dona Carmita, ainda não está lá. Começo a estranhar, mas que se foda.
Ela ma chama. É ela, é a velha. Ela quer o aluguel. Eu vou até o pato da minha mãe, em cima da geladeira. Hoje faz três meses que enterraram a minha mãe. Eu não estava lá. Não me arrependo. Não me arrependo mesmo. O dinheiro do aluguel eu deixo no pato. No pato da minha mãe, em cima da geladeira. Ela usava para guardar os ovos. Esse pato é horrível. Eu não consigo me livrar dele. Nessa casa só tem coisas velhas. Eu não quero chegar à velhice. Pago o aluguel, volto para o sofá. Daqui a pouco tenho de ir trabalhar. Comida, eu estou precisando comprar algo para cozinhar. A geladeira está completamente vazia. O armário também. Cigarros eu tenho. Acabei de apagar um. E ainda tem uns três maços lá no quarto. Faz tempo não entro no meu quarto. Há uns três dias não saio desse sofá nem para toma banho. Hoje faz três meses que enterraram minha mãe. Hoje paguei o aluguel. Hoje comi a vizinha. Vou trabalhar.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Do Orelhão


Seu Romão, preso político, velho sonhador e ranzinza estava escutando um disco do Lupicínio deitado no sofá. A preguiça o estava dominando naquele momento tênue entre um sono e um gostoso som de pássaros. Na varanda o coleiro cantava alto. O mundo andava devagar.
Ana Rosa desembarcava na Grande Curitiba, com uma mala espalhafatosa e os dedos gélidos. Implorou, radiante, por um pouco mais de calor no sangue já em cubos cristalinos de gelo.
Foi até o orelhão e discou o número da casa do pai, esperando um pouco daquela paz que a fez voltar à cidade modelo.
Explodiu na sala do seu Romão o “trim” do telefone antigo. Ele, com uma caneca de leite quente nas mãos atendeu com vontade de desatender imediatamente. Ela, Ana Rosa, foi falando primeiro para não perder tempo

- Pai!

Seu Romão, também para não perder tempo disparou:

- Não tenho filha com essa voz de puta paulistana!

Ela, confusa, foi conferir na agendinha de papel o número da casa de seu velho pai.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Uma puta... provavelmente



Os diversos ritmos musicais refletiam na parede do pequeno apartamento, vindo principalmente dos arredores dos arcos. A vida boemia do bairro era conhecida e não parava. Jonas agitava-se na cama para lá e cá com um sentimento de vazio. Levantou-se. Tomou um belo gole de suco e voltou para o quarto, onde pegou os cigarros. A mente repleta de agonia, com aquela mistura de ruídos ensurdecedores e incrivelmente variados. Se encaminhou pra sala com um cigarro na boca e um jeans no corpo. Pensou alguns instantes na vida com o cigarro nos dedos. Era tarde. Mas era na madrugada mesmo que ganhavam a vida. Coragem nunca faltou. Jonas achava mesmo que quem não tinha coragem de seguir com aquilo era ele. Mas algo lhe dizia que era preciso. Depois que fizera a primeira vez e com prazer, era um sinal que tudo havia de ser feito quantas vezes achasse necessário. Voltou ao quarto. Calçou um chinelo e vestiu uma camiseta branca.
A mulher assustada que estava, levantou com uma tremenda desconfiança e com o olhar de quem nada gostava.

- Escuta aqui seu Jonas, já é a quarta vez que eu lhe vejo saindo escondido na madrugada. Eu perguntei se você queria sair e o senhor me disse que não. Posso saber que raios vai fazer na rua às três da manhã?

Jonas deu uma belíssima desculpa esfarrapada para a esposa que lá ficou a engolir tal mentira. Nas ruas, o homem agoniado encontrou gente de tudo quanto é tipo. Vestidos de todas as maneiras. Os sons continuavam entupindo-lhe os ouvidos e a vida festeira da Lapa parecia não passar diante dos olhos. Acendeu mais um cigarro enquanto caminhava. Permanecia com a alma inóspita e inoperante. Expressão de quem não pensa em nada. Pensou na Lourdes. Mulher de garra e fibra. Agüentaram bastante em Del Castilho, vivendo de aluguel na casa de uma das tias da mulher, agora conseguiram comprar aquele apartamento.
Jonas parecia sufocado. Esbarrou em um molecote que estava drogado e procurou briga. Seguiu em frente sem olhar pra trás com os olhos quase vidrados. Lembrou das outras vezes que sentou na cama precisando fazer com que a vida parasse. Havia de parar. Cismou estar sendo seguido e a quase esquizofrenia lhe custou uma parada obrigatória para ser taxado se maconheiro pelos policiais que lhe revistaram pelo caminho. Sem flagrante e com documento, os canas deixaram Jonas seguir com um olhar perdido, mas que parecia determinado. Andou mais uns metros, alcançando um antigo galpão onde antes havia sido a casa de um bloco carnavalesco do bairro. Jonas havia feito um de seus poucos bons sambas para aquele bloco. Sentou-se na calçada do bloco. Do bolso tirou o maço de cigarros e um cantil que havia surrupiado do cunhado que morava no Recife. Deu um grande trago no cigarro e um gole na cachaça. Atentamente, esperou o que estava para acontecer. Os olhos fixos numa porta de ferro do outro lado da calçada. De lá, sai um rato que mais parece um gambá de tão enorme. E se aproxima de um objeto metálico no chão. Ouve-se um grunhido de dor. Lá estava o bicho asqueroso, preso e morto por sua gula infindável. Jonas aos risos, entornou mais cachaça pela goela.
Enquanto isso a mulher em casa reclamava ao telefone com uma amiga do curso de inglês:

- Não sei. Uma puta... provavelmente

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Por um pouco de felicidade


Era um domingo de sol. Portas e janelas abertas nas casas da rua, churrasco na calçada e uma pelada organizada pelos moleques. Acordou ás duas da tarde o Eugenio, lá com uns 43 anos e parecendo ter menos. Gostava de dormir sob a sensação térmica do frio provocada pelo condicionador de ar. A bagunça provocada pela festa do dia anterior o deixava cansado e dava mais vontade de voltar pro quarto refrigerado e confortável.
Indo em direção a geladeira, resmungou numa linguagem quase inteligível um palavrão, posteriormente entornando em grandes goles dois copos d'água. Sentou-se vagarosamente no sofá da sala com uma xícara de café na mão, de frente para a TV desligada. Fitando sua própria imagem na tela, sentiu-se vazio sem o tanto de gente que permaneceu na festa até quse o dia raiar. Lembrou-se quase que no mesmo instante, da carteira desaparecida que ainda não havia achado. Pensou no que ele ficaria aborrecido de perder além dos documentos: uma medalhinha de Nossa Senhora da Graça, fotos das filhas e um samba que havia rabiscado uma semana antes no boteco com o amigo. Notou porém, que ele era o único em casa. A mulher devia estar no mercado. Tentou falar alguma coisa consigo, mas quase imediatamente mudou de idéia. Levantou-se do sofá rumando para a cozinha. Abriu a geladeira em busca de cerveja, mas não tinha. Meteu a mão por cima do armário procurando o maço de cigarros, que lá estava, mas vazio. Reparou então, que a casa estava demasiadamente escura e que os pães que estavam na cesta, estavam bolorentos e duros. Confuso, tentou sorrir mas não conseguiu. Irritado, tentou raciocinar e nada evoluiu. Então voltou-se para o quarto, inquieto e impaciente. Sem ter exito em qualquer feito, decidiu dormir e sonhar com algo feliz. O sono não veio e por consequência, não trouxe os desejos. Fechou a cara, limpou a mente e decidiu se bastar, mas agoniado levantou-se e se pôs a andar feito louco para lá e cá.
Não demourou escutou ruídos de motor de carro velho. Olhou pela janela do quartou e viu que era a kombi velha da entrega do supermercado. Escutou as risadas das filhas e uma advertência da mulher para com as crianças. Deitou-se e voltou a dormiu para sonhar. As crianças foram correr atrás do cachorro. Lembrou antes de conseguir cochilar onde colocara a carteira. Sonhou vendo-se andando sem rumo.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Os 98 Bastardos


Era domingo e o boteco do Bené pegava fogo. As donas-de-casa dos dias de semana e os maridos bêbados de todos os dias de Fla-Flu sambavam ao som de um doído pagode. Era um tal de tentar flertar com as antigas putas rebombeiras que o bairro escondia, sentar no colo dos cobradores de ônibus que curtiam sua folga e de cantar aos altos pulmões a simplicidade das letras impregnadas do amor chulo. Era além de tudo feriado e só o bar do Bené abrira as suas enferrujadas portas de ferro. De fato, era uma alegria que contagiava toda a massa. Era até bonito vivenciar algo do gênero. Muitas das almas que lá estavam, não compartilhavam a mesma felicidade em outros aspectos ou outros momentos.

Mercadinho, padaria, locadora... Tudo fechado. Somente o botequim dirigido pelo já famoso Bené sobrevivia a um feriado no domingo. Os crentes já se agitavam com o culto que estava para chegar, os homens já aqueciam suas gargantas para gritos de “filho-da-puta” contra o juiz ou ao craque que perdeu um gol e as mulheres já preparavam os mesmos palavreados para a falta de atenção dos mesmos homens, quando eu, que estava bebendo em uma das mesas junto a dois amigos vi a chegada de um antigo vizinho. Homem rigoroso com os filhos, com a mulher e o trabalho, seu Joel era um indivíduo bem peculiar. Falava tranquilamente, se expressava com certa cautela e pensava suas palavras, justamente para não se ver misturado a gentinha que atolava o bar. Para ele, que gostava mesmo era de música estrangeira, mesmo sem conhecer quase nada nem das histórias e das letras, era o que prestava. Aquela melação não era nem para homem. Esse negócio de ficar que nem mulherzinha com cabelo cheio de goma e rebolar, não fazia parte da vida de seu Joel. Aquela merda toda era falta de vergonha, isso sim.

E lá estava seu Joel, entrando naquela barraca cheia de gentinha.Como todo estabelecimento de bem estava fechado, o jeito era compra a coca-cola do almoço lá na birosca do Bené. E seu Joel já entrou com a cara amarrada de estar naquele antro. Já foi logo pedindo licença de cabeça baixa para não trocar olhar com gente daquele porte. Mas mesmo se escondendo como um rato que foge de uma vassoura voraz, foi reconhecido e cumprimentado e com louvor por um dos nossos vizinhos, Luís Joelho. Luís Joelho era gente fina, mas não conseguia manter a boca calada. Havia gente que cochichava pelos cantos que era de família, pois seu pai tinha perecido de morte matada por nego que era de prestar serviço sujo aos donos da situação, só porque revelara que viu uma rapa deles aplicando um sujeito ladrãozinho perto da linha. Pois bem, seu Joel o cumprimentou e tratou logo de ir buscar seu refrigerante e sair da bagunça armada no tal botequim. Já se ia descendo a calçada, quando Luís Joelho o chamou de volta. Perguntou se seu Joel queria se sentar e tomar uma com ele e seus amigos. Seu Joel negou logo, disse que ia almoçar com a família, mas com o argumento de um copo só porque era seu aniversário, Joelho dobrou o velho Joel e o convenceu a uma cervejinha só. Quando sentou-se, o homem quase se levantou de imediato, estava lá sentado também, Cabrito, homem de muito prestígio entre gente desalmada que encomendava a alma do filho alheio ao Cão. Os filhos nunca prestavam, mas não era de direito dos comerciantes furtados exercerem essa justiça. Joel temia muito o homem, mas não o respeitava. Olhava para Cabrito como se fosse um verme. ‘Além de ser matador, esse safado também é filho-da-puta. É um bastardo’, sempre fala seu Joel.

Depois do terceiro copo, como não era muito de beber, seu Joel já estava se dando por satisfeito e até de língua solta. Falou mal do Botafogo, time do dono do bar, reclamou do som alto que não deixava os outros conversarem e pra finalizar, disse que o bairro era uma merda e que era capaz de encontrar em vinte e quatro horas é capaz de nomear cem bastardos para a rapaziada se divertir as custas. Mal sabia seu Joel, mas o desafio foi aceito logo por Cabrito, que coçava os dedos e buscava na cerveja esfriar a cabeça pra não puxar a arma para aquele paraíba metido a ‘Zé Pureza’. Cabrito foi logo dizendo em tom de ameaça:

- Esperto isso que o senhor disse. Quero ver fazer mesmo. Quero ver me dar nome de cem filho de chocadeira daqui do Nova América.

- Se to dizendo que faço, não preciso da tua voz pra fazer. Se duvida, arruma papel e caneta que lhe dou nome e endereço dos bastardinhos e das puta véia.

- Então meu bom... aguarda aí que logo trago o que tu me pediu.

Voltava Cabrito de dentro do boteco do Bené trazendo uma caneta e uma penca de guardanapos para o já desestimulado seu Joel, a cerveja já começava dar lugar a adrenalina de dizer não a uma coisa que um homem daquele havia levado para o pessoal. A tensão aumentou enquanto o dito cujo avançava para a mesa onde Joel, Luís Joelho e mais alguns outros estavam sentados. Joel tratou logo de dizer que não era para Cabrito levar nada para o lado pessoal e que ele já estava alto com os copos de cerveja, sem falar que a mulher ainda o aguardava com o refrigerante para o almoço. Logo um grito irrompeu deixando todos os fregueses de olhos esbugalhados. Cabrito tava com o trinta e oito na mão, mandando o paraíba sentar. O sangue nos olhos do matador e a saliva saltando da boca.

- Agora tu vai escrever essa porra. Tu não sabe de que saco meio bairro veio? Não ta aí todo cheio de maldade falando dos outros? Então escreve filho-da-puta, diz aí quem é cria de chocadeira. Fala de mim e da minha finada mãe pra voce ver como não lhe acerto os cornos.

Indignado com o acontecido, Bené e a turma do deixa disso foram logo entrando em ação para acalmar os ânimos. Mas para piorar, seu Joel decidiu ser corajoso logo naquele dia e xingou o matador de tudo quanto foi nome ruim. Os homens do bar tentaram impedir que tudo recomeçasse. Mas Luís Joelho foi logo gritando:

- Deixa, não é de hoje que Cabrito quer resolver isso. Aquele filho novo do Joel é dele. O moleque é do Cabrito, deixa os dois resolverem que nem homem, porra.

Fez-se silencio imediato no bar inteiro, no cenário, o tempo havia parado. Ninguém parecia saber que o Cabrito, que andava condenando almas que ajudaram no adultério da esposa alheia, estava comendo a mulher do seu Joel. De repente um estampido. Corre, corre e Luís Joelho se esvaindo em sangue caído e morto no chão. Só quem restou no bar, foi Bené, o dono, Joel e Cabrito e o falecido, o bocudo Luís Joelho. Fim do segredo, em Nova América, todos eram bastardos. Todos mesmo.

Dos nomes que seu Joel se lembrava dentre os filhos de chocadeira, ele tinha certeza de noventa e oito. Mas faltavam dois para os cem propostos, e esses podia ser contatos com o próprio filho, de meses e ele próprio, já que a sua mãe quando saiu da paraíba foi parar nas bocas de Santos e era amante de cantor famoso. Dizem que era o Nelson Gonçalves. Mas no Nova América, neguinho fala de todo mundo.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Sessão Conto - A prova de Inglês


Danilo, treze anos, tentava desesperadamente estudar trancado no seu quarto. A recuperação se aproximava com a velocidade de um jato. Aliás, jato era uma palavra que não saía da cabeça do menino. Sua mãe, havia mantido seu jato de controle remoto guardado e escondido desde que soube dessa história de recuperação, ela não havia ficado nada contente. É claro que para ter seu avião de volta ele tentaria de qualquer maneira burlar aquela situação adversa pra se encontrar com seu brinquedo novamente.

A professora de inglês de Danilo era, chamando generosamente, um demônio e as suas avaliações se tornavam martírio na mão dos guris que urinavam-se de desespero. O que Danilo não sabia, era que o maior castigo imaginado por sua mãe não era deixar de pilotar seu avião, comprado pelos avós com muito custo. Nem tão pouco perder as saídas com os amigos. A mãe já havia decidido que se houvesse repetência, Danilo iria estudar um ano numa escola pública da região. Ele não sabia, mas ali, naquele quarto, sua luta não era somente pelo avião de granfino que ganhara dos avós depois de alguns anos recebendo presentes de vestir ou de comer no aniversário. Danilo lutava por sua permanência numa classe onde seus maiores medos e preconceitos se escondiam e podiam permanecer ocultos até os papos com os amigos e as brigas e peladas contra os moleques mais pobres e que estudavam no ‘Brizolão’ mais próximo de sua casa e escola.

No dia do maldito exame, foi o primeiro a acordar. Arrumou-se e tomou café com uma motivação jamais vista desde os tempos do ensino infantil, saiu adiantadamente, com a disposição em alta. Mas, bastou sentar-se à carteira para sentir o estômago dar saltos dentro de si. Observou o relógio e nem ao menos ouviu os brados de lealdade invocados pela professora, tentando alertar os alunos para que não cometessem o pecado capital da cola, ainda mais com uma professora tão rígida. Recebeu a prova. Sentiu suas mãos suando frio e o estômago agora pipocava em seu ventre. Lembrou-se do avião, da mudança de escola não, ele nem desconfiava o quão grave era a situação. E pronto! Havia começado a fazer a avaliação de recuperação em inglês.

Cada vez mais, melancolicamente via seu destino mais claro nas entrelinhas da prova. Tudo se parecia impossível de se resolver. Tudo que havia estudado no seu quarto antes, não passava de besteiras sem sentido. Para não dizer que tudo era um inferno, Danilo estava se virando com as questões mais fáceis. Porém, nas mais difíceis, e consequentemente as que mais valiam pontos, estava se arruinando e vendo sua determinação encerrar-se. Já não tinha mais jeito. Era entregar a prova e rezar por uma nota cinco. Era tudo o que Danilo precisava.

Chega o dia do resultado. Não com o mesmo afinco anterior, Danilo se dirige à escola com a esperança no coração. Ainda sem saber seu principal castigo, caminhava como um zumbi, sem perceber absolutamente nada ao seu redor. Pensava exclusivamente na sua nota. ‘Só um cinco’, pensava ele. A entrada da escola apinhava-se de alunos ávidos por suas salvações ou condenações para uma vida futura de estudos, estudos e estudos. Quando sua série foi chamada para receber o boletim, Danilo sentiu na espinha um frio dos Andes. Calou-se repentinamente e deixou o animado papo sobre futebol com os amigos para depois. Isso se houvesse depois...

Depois das piores férias da sua vida, Danilo teve de se contentar e consolar com a escola pública. Ia diariamente triste, como se fosse para uma forca. Não engolira o quatro e meio que a maldita professora de inglês havia lhe dado na prova. ‘Um absurdo!’, bradava ele. Um dia, depois de sofrer na mão dos antigos desafetos todo o tipo de ‘barbaridade’ escolar, chegou em casa aos berros

- Mãe, não quero mais voltar pra lá! Por favor, não me deixa voltar!

- Foi você quem desperdiçou a chance Danilo, não eu.

No dia seguinte, levantou-se com um comportamento muito estranho. Como no dia da prova de inglês que o levou ao fracasso, foi o primeiro a levantar-se. Foi até o quintal, colocou na mochila uma pequena lata de tinta que há tempos estava jogada num canto, pegou no banheiro um velho batom da mãe e seguiu rumo a seu martírio diário. Passou antes na antiga escola e vendo tudo fechado e ainda vazio, como previu, pintou com a tinta do avô no portão branco ‘SUNDAY MORNING, NEVER MORE’, a frase que o tinha reprovado. Seguiu então para sua nova escola. O olhar perdido de uma mente mergulhada na insanidade pairava sobre seu rosto mais que as sardas e espinhas. Entrou na nova escola como um jato, o jato que jamais conduziria de novo, e foi logo sendo importunado por seus novos colegas de classe. Pintou então, com o batom da mãe, a mesma frase que havia pintado no portão de sua antiga escola na camisa branca de seu uniforme. Foi para o alto do prédio, onde a quadra de esportes reinava absoluta no último andar. Sem ao menos explicar ao inspetor o porquê do seu uniforme pintado, fugindo as regras do colégio, atirou-se lá de cima. Caiu no gramado como um herói com a frase ‘SUNDAY MORNING, NEVER MORE’ no peito. Finalmente havia aprendido um pouco de inglês.







Guilherme Cabral




Para ler ouvindo - Sunday Morning / The Velvet Underground and Nico